Parece que foi em outra vida que eu te amei

Texto de 2013

Bicicleta, estrada, um pranto, um precipício desentendido. Avistei a você aquela vez pelo canto de olho; pedalei mais forte para me esconder. Caí ao chegar na ponte na beirada do rio e me vi garota no reflexo. Aceitei o que tende a ser a vasto que me ergue hoje. Verdade é que me tornei minha. Nasci e fui alimentada outra vez, agora por minhas próprias mãos. Os olhos recém-chegados ao universo me olham pela primeira vez, esse apego doloroso do sacrifício. Só assim não se perde a razão de ser. Do lado de fora, a cidade e as pilhas de questões acumuladas. O desnível entre corpo e mente apenas se expande. Caiu sobre minhas costas uma contradição de transmutar, reparar. Destrinchar uma ideia e questionar sua própria validez, mesmo sabendo que me é visceral. Não mais concluo aquilo que estava fadado a acontecer: o saber jurídico me moldou e eu não consigo pisar fora dessa lógica. Penso cada vez mais como advogada, ajo como menina, mas a vida me cobra decisões de mulher. Desequilibrada porque ainda não sei se o que me tornei é a mera ideia do que gostaria de ser. Amedrontada porque os espaços entre as memórias tornam-se maiores, e já quase não consigo enxergar o sentido do anterior. Decidida que, entretanto, como única certeza posso ter a de que todo o caminho já percorrido constitui as escolhas que fiz.

Fiz? Se as fiz, por que retorno mais uma vez à curva que me traz à tua estrada? Mais sombra, o início azulado da noite me faz solitária, também assustada com os caminhões correndo ao meu lado na rodovia escurecida. Só tenho a bicicleta emprestada e estúpida vontade pela qual me rendo novamente. A vontade se reflete em sonhos, os sonhos se transformam em anseios, os anseios me contaminam com ações pouco trabalhadas. As ações me levam a, enfim, parar em frente ao teu portão. Minha fuga do meu próprio mundo e ao mesmo tempo meu apego pela vida estão nos nossos feriados, nas poucas tardes ensolaradas, nos latidos dos teus cachorros, nas conversas de quarto, cozinha, banheiro, quintal… nas despedidas que inevitavelmente precisam ser feitas. Mais uma vez e só mais uma vez, eu tento me dizer mesmo sabendo que não será.

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