O desabafo

Pintura em destaque de Rosita Schaefer

No corredor do terceiro andar no 78º distrito policial, Hélio, delegado, encontrou-se com Hermes, inspetor. O primeiro homem disse ao segundo:

-Como vamos, meu chapa?

-Uma canseira. Finalmente encontrei com o senhor. Doutor.

-Canseira de besteira, né? Queria falar comigo?

-É. Eu tenho uma espécie de um relatório. Uma mensagem, doutor.

Hélio se encostou no portal em tinta descascada de sua sala. Estava trancada.

-Tenho 5 minutos para você. Seu desabafo.

Hélio tirou as chaves, passou pela fechadura apodrecida e abriu a porta velha que dava para um cômodo bastante espaçoso em comparação aos cubículos destinados aos funcionários que não ocupavam a mesma função. No final, parecia do mesmo tamanho dos demais pelo acúmulo de desorganização. Hermes não entendia como um delegado lotado em um distrito tão disputado poderia ter feito de seu local de trabalho um quarto de adolescente: nas paredes, pôsteres diversos de cultura nórdica, uma espada de colecionador de algum videogame, uma algema que certamente não era da Polícia Civil e que poderia muito bem ter saído direto de uma sex-shop, dois recortes de capas antigas da revista Playboy nos formatos dos corpos das mulheres. Já haviam reclamado mais de uma vez daquelas fotografias. Uma estampando Joana Prado, a Feiticeira. A outra seria Scheila Carvalho? Ou Sheila Mello? Difícil recordar. Tentava alcançar sua memória enquanto observava o delegado se sentando em frente à mesa onde fica o computador, completamente entulhada por notas fiscais, cartões fidelidade de restaurantes da região carimbados apenas uma vez, diversos inquéritos policiais que ou estavam abertos em uma página perdida, ou jamais haviam sido tocados, empilhados em uma montanha cada vez maior. Perguntava-se como os civis eram recebidos ali. Naquela cadeirinha bamba, de espuma carcomida e com uma das rodinhas faltando.

-Desembucha. – o delegado disse enquanto abria um pacote de salgadinhos que em poucos segundos empesteou toda a sala com cheiro de queijo velho. – Quer?

-Não, obrigado. Acabei de fazer um lanche. Eu vou falar. Doutor. É que são muitas pendências, entende? Eu não sei como começar. Estou atolado.

-Pendências?

-É, penduricalhos. Coisinhas.

-O que foi? Tem muito trabalho acumulado? Já falei que tinha que fazer redistribuição. Não cabe mais nada nessa delegacia.

-Não é isso. É difícil.

-Se você não for mais específico, não vou te entender, chapa.

-É que… Eu faço um trabalho fora daqui. Uma espécie de segundo emprego. E ficou meio sombrio, entende? Pesado demais.

-E qual é… – Hélio já estava desbloqueando a tela do celular para prestar atenção em outra coisa.

-O senhor sabe que eu escrevo em um blog de contos policiais, não sabe? Junto com uns colegas da 23 e da 99.

-Sei. Já ouvi falar. Você me contou, eu acho que foi isso. Nunca li por falta de tempo, mas sei, chapa.

-Era um hobby. Escrever, criar histórias. Usar alguns relatos da própria vida policial. Sempre gostei para distrair um pouco a cabeça do peso dos casos que vejo aqui. Alguns meses antes das eleições do ano passado, um colega que escrevia comigo falou de um trabalho com uma empresa. Estavam pagando direto em caixa por trabalhos de criação de textos para rede social. Fazer uma grana extra com algo que gostava pareceu uma boa ideia. Fiz inscrição e me chamaram sem muita burocracia. Quando cheguei para o primeiro dia no escritório ali no Centro, descobri que era uma empresa trabalhando nas eleições para um candidato desconhecido, não sabia quem era. Um juiz, alguma coisa assim.  Passavam um texto por semana, no máximo dois, me pagavam por trabalho feito e eu podia ir embora assim que terminasse, não ficava nada com a gente. Não sei como faziam isso pela lei, era tudo bastante informal.

“Eram textos simples, mas passando emoção. Diziam não ser problema falar mentiras sobre outros candidatos. Às vezes tinham excessos. Eu estranhava, mas também achava que fazia parte. Para estimular, os chefes diziam que os dois lados inventavam. Era uma “guerra de narrativas”, usavam sempre esse bordão. Foi um teste de criatividade, eu me divertia. Escrevi uma corrente avisando que se um dos candidatos fosse eleito, as escolas passariam a receber do governo professores para ensinar posições sexuais aos adolescentes. Uma outra com relatos de que a esposa de um dos candidatos tinha contatos com famílias do Estado Islâmico. O pessoal da edição era mais elaborado. Conseguiram fazer uma imagem perfeita dos apoiadores do principal candidato distribuindo drogas na Avenida Paulista. Teve investigação sobre isso, né? Era hilário. Era tudo mentira também, mas achei que era parte do jogo, entende?

-Ninguém achou isso estranho? – Hélio achava que aquilo tudo era uma perda de tempo, história de eleição tem sempre essas maluquices. Pegou o controle da pequena telinha que agora tinha aquele satélite que havia mandado instalar na sala na semana anterior.

-Alguns ficaram confusos, com medo. Um colega perguntou se não poderia ser processado, ou se não era caso de polícia. Até eu tive as mesmas dúvidas. Uma mulher da criação junto comigo não apareceu mais, disse que não estava feliz com aquele trabalho. Só que garantiram para nós que era 100% anônimo, e que nada ali seria utilizado fora da lei. No calor de véspera das eleições, a maioria ali apoiava o tal do candidato também. Era um envolvimento coletivo.

Hélio começou a ficar impaciente. Estava desconfortável pela forma como Hermes contava, muito teatral.

-Mas e aí? Isso tem uns 3 anos. Já foi, chapa.

-Eu também achei que tinha passado. Vencemos as eleições, foi uma euforia, até eu estava apoiando aquele cara. O senhor sabe como foi. Doutor. Achei que tinha acabado o trabalho porque a própria empresa parecia existir só para a campanha. Um mês depois, ligaram da empresa, perguntaram se eu gostaria de fazer novos trabalhos de criação. Agradeci, mas expliquei que havia um conflito de interesses pela minha condição de policial. Respondi que não. Ligaram de novo na mesma semana com uma proposta um pouco mais elaborada, era um cachê maior do que da outra vez e só um texto por semana. Eu aceitei. Não foi o certo, mas aceitei.

Hélio se irritou:

-Chapa, já foram 20 minutos disso. Qual é o problema que você tem para me contar? Ficou arrependido de pegar esse emprego que não podia no seu cargo? Não esquenta, não vai dar em nada. Já saiu dessa furada, né? Então tá tudo certo. Ficou assim por causa daquela brincadeira, não foi? Era tudo na paz, chapa, a gente queria ver se você descontraía um pouco, pra ver se fica menos assim quietão. Agora chega logo no seu ponto que eu tenho que fazer outra coisa – mudou o canal da televisão muda, até então num programa de imobiliária do Discovery Home & Health para um canal de noticiário.

– Doutor… – parecia ter se irritado por lembrar daquela humilhação – Eu vou chegar. – um estalo na mente – Sheila Mello.

-O quê?

-A Loira do Tchan. Na sua parede. Não lembrava se era a Sheila Mello ou a Scheilla Carvalho.

Hélio sentiu ser feito de palhaço, queria soltar um palavrão. Hermes prossegue antes:

-Eu vou contar o problema. Doutor. Eu vou contar.

Com um olhar furioso, Hélio dá a sua última chance para aquela história se tornar relevante.

– O trabalho novo era bem mais esquisito, precisava criar alguns roteiros rápidos de televisão envolvendo personagens fictícios em contextos que eles nos passavam. Nem vi o resultado, pensei que não tinham usado porque não era o meu forte escrever esse tipo de texto. Lembro de entregar os textos em rascunho, não revisei a maior parte. Agora, não sei se o senhor tem acompanhado, os jornais nem sabem como divulgar, ninguém ainda entendeu nada. Tem aquela operação nova dos federais chamada A Verdade é Dura. Saíram vídeos gravados da época das eleições passadas. São os candidatos da oposição incitando as pessoas para serem violentas, apologia a crimes contra policiais, políticos. Viraram terroristas, inimigos públicos. Os vídeos existem, estão ali para todo mundo ver. Já recebi pelo celular mais de uma vez. Mas eles nunca disseram nada daquilo. Só que nem os peritos sabem se é montagem, é um tipo de edição que ninguém desmentir. Estão divergindo se é adulterado ou real, então quem pode dizer? Eu sei. Eu sei que eu escrevi a maior parte daquelas falas, eu e os outros colegas da empresa. Nós escrevemos. Mas agora, o estrago já foi feito.

Hélio, meio confuso, coçou a cabeça sem um único fio de cabelo. Disse ainda relutante:

-Tenho visto umas notícias. Estava comentando com alguns colegas… Parece armação esses vídeos, não estou levando fé de que vá para frente a operação. Por que você está tão preocupado? – a televisão agora exibia um governador sendo levado algemado para dentro de uma viatura da Polícia Federal.

-É porque é impossível de desmentir. Doutor. Eu estou tentando. Mas é algo muito maior que mim. É imparável. Quando as prisões começaram, eu entendi. A minha consciência se despertou em um grau obsceno. Aquela gente toda… Tem vídeos deles circulando. Dizendo frases que eu mesmo escrevi. A princípio, achava que não estava comprometendo ninguém. Acontece que muito daquilo se tornou real.

-Hermes, o que é que pega com você? Que viagem, chapa. Tem uma investigação, estão averiguando. O que está te deixando aflito? Se você tem alguma prova que pode colaborar com os federais, por que não abre um procedimento? É por isso que você está me contando? Você sabia disso tudo, não? Por que continuou envolvido? Chapa, sempre te achei esquisito, mas hoje passou da conta.

Hermes estava ofegante. De tanto falar, precisava de um copo d’água. Encheu um copinho plástico e quebradiço pelo galão, sentou-se novamente em frente a Hélio e disse com bastante calma e em pequenas pausas:

– Eu sei que quando olho para a foto que está na sua parede, é Sheila Mello. Eu… Sei que ela foi a Loira do Tchan, a minha memória me traz diversas recordações do tempo em que essa mulher fez sucesso. É a Sheila Mello, e não é contestável para mim de que essa mulher posou para a revista Playboy. E tenho a certeza absoluta de que não é a Scheilla Carvalho, que é morena e que tem um nome escrito diferente. Ela esteve de frente para alguém que a fotografou, em carne e osso, nua, como veio ao mundo, e as fotos que estão ali são a evidência de que ninguém fez isso no lugar dela. Só que os vídeos que estão circulando, eu não sei quem fez. As imagens em algum momento podem ter existido, eles ali em um palanque, nas ruas, eles em um comício. Mas são as minhas palavras ali. Aquilo não é real, mas não importa. Não importa também se eu disser que não é real. A partir de agora, aconteceu. A partir do momento em que eu redigi aquilo, passou a existir. Não importa se eles nunca falaram aquilo. Eu falei. Não importa se você não fez aquilo. Eu disse que fez. Agora existe, aconteceu. Eu criei um mundo paralelo onde a verdade não existe mais… – sua voz foi interrompida.

– Hermes, você está bem?

– Doutor. Desculpa. Eu estava tentando te avisar… – disse enquanto olhava para a porta da sala.

– O que é que há contigo? É melhor encerrar a conversa, não estou gostando disso…

Dois homens vestidos de preto entraram de súbito se esquivando das indumentárias medievais e apontando suas armas. “É o delegado do pornô de zoofilia!”, um deles gritou golpeando Hélio e pressionando sua cabeça contra a mesa.

– Pornô? Zoofilia? Mas o que…? Hermes, o que você fez? O que você fez comigo? Hermes, seu verme, eu te mato! – foi algemado com o rosto sujo de molho de tomate do bife à parmegiana, o prato que estava ali desde ontem.

– Desculpe por aquele texto, doutor…

Hermes mal conseguiu enxergar os rostos dos homens que levaram Hélio embora. Ficou de pé ao lado da janela alta do terceiro andar e teve uma vaga sensação de que fora da delegacia se amontoavam repórteres com suas filmadoras, pensou ter escutado alguém perguntar se era verdade que mais policiais estavam nos vídeos. Olhou para os pés que não pareciam serem os seus, para a calça que não conseguia se lembrar de ter colocado aquela manhã. Sentiu uma gota de suor escorrer entre o dedo indicador e o médio, pôde ouvi-la caindo no chão. Levantou-se, deu uma última olhada naquela sala e uma pontada de alívio finalmente lhe atingiu. Saiu daquele lugar que cheirava à morrinha e fechou a porta atrás de si sorrindo.

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