Trôpega espera ou texto sem clímax

Durante uma turbulenta aterrissagem na pista pequena demais do aeroporto de Congonhas, Cassandra acordou pela primeira vez. Sentia a perna esquerda dormente, assim como braço que apoiava a cabeça na poltrona minúscula. Os olhos ardiam, a boca exalava secura e um hálito repugnante do salgado sabor azia distribuído na cortesia – também feito sob medida para a classe econômica. Aquela viagem de apenas meia hora parecia ter despertado todas as dores musculares ou vertebrais que estavam por vir após ter passado as últimas três noites em um sofá menor que seu corpo. Ainda num estágio sonâmbulo, tentava se recordar ao menos do momento da decolagem, alguma cena recortada do mundo visto de cima, das nuvens espreitando as janelas daqueles estranhos em meio a imensidão…

Acordou pela segunda vez quando percebeu que a pessoa ao seu lado, no lugar do canto, pedia licença. Em um movimento mecânico, girou o corpo e colocou os pés no assento ao lado, deixando espaço livre o suficiente para alguém transitar. Sentia a perna ainda dormente. Não seria capaz de dizer se quem pedira para passar seria um homem ou uma mulher, pois aquele momento sequer foi registrado pela sua mente. Talvez aquilo nem tenha acontecido na realidade, pensaria depois. Pensou sobre como aquele alguém ao seu lado havia lhe chamado. “Senhora?”, em tom firme e suave, um cântico sereno, mas sem pudor. Alguém que deve saber tomar decisões. Sentiu-se um pouco mais próxima daquele estranho que pedira passagem. Parecia saber um pouco mais sobre ele, sobre ela, de que importa? Uma frase consagrou sua eterna intimidade. Alguém que disse “senhora” ao pedir passagem. Enquanto tentava registrar qualquer memória daquele instante, captava imagens desfocadas dos passageiros retirando seus pertences do bagageiro, sombras que se esticavam, se esgueiravam e se mutilavam, para depois desaparecerem em fila na imensidão de um corredor estreito demais. Cassandra era incapaz de compreender aquele estranho ritual.

– Senhora?

Caiu em si e acordou pela terceira vez quando ouviu a palavra “senhora” de novo, mas por uma boca que tinha rosto ao seu redor – uma imagem que gravou, mas que não lhe despertou qualquer sintonia, não como a voz anterior. Sequer parecia uma voz; era um ruído, alguma espécie de som em frequência inaudível captado indevidamente por um corpo humano. Uma nuvem sem qualquer significado se esvaia pouco a pouco, mas Cassandra não conseguia se levantar. Sentia que era necessário esperar aquilo que não sabia o que era ou poderia vir a ser. Talvez a resposta fosse surgir imediatamente, talvez apenas dali a muitas horas, então gostaria de poder estar na poltrona 23-B para então saber.

– Senhora? Tudo bem?

Era a mesma voz de instantes antes, pensou Cassandra, e acordou pela quarta e última vez sentindo um cheiro quente de respiração. Uma comissária de bordo de batom rosa-choque a poucos milímetros do seu rosto foi a primeira imagem que enxergou com nitidez desde que entrou no avião. Mais de perto, um rímel em muitas camadas, não apenas a mais do que as de pó e de base na pele que tornavam quase imperceptíveis os poros. Era uma mulher de olhos grandes cor de jabuticaba que sorriam junto da boca que lhe chamara e que também exalavam sua impaciência. Cassandra olhou ao redor. Era a única passageira que ainda não havia se retirado do avião. Levantou-se, tropeçando na perna ainda dormente, pois não havia mais a opção de esperar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s