Sete dias de Lilith

O corpo disforme de uma mulher nua preenchia os vazios da pedreira molhada das águas do riacho cristalino. Seu olhar em direção ao céu acompanhava o bater de asas de um gavião voando em espiral. Ocupava mais um dos seus dias sonhando acordada nos jardins do Éden. Sua imaginação brincava com as imagens dos animais interagindo entre si e o balançar das árvores criando novas formas e cores presentes apenas dentro da sua cabeça. Em certos momentos, as reações inesperadas de roedores procurando alimento ou dos peixes emergindo com força de dentro dos lagos provocavam-na uma risada estridente que se expandia pelos corredores arborizados. Não havia uma sequência temporal; seu sono era intercalado durante o dia e a noite. Também não fixava moradia – sua vida era regida no acaso de suas necessidades, onde o infinito e a inocência orquestravam os seus passos.

De tantas possibilidades em um contexto, uma frequente era a de encontrar um homem. Como um ser também nômade em um espaço limitado, não era de se espantar que os passos tomariam o mesmo rumo em dados momentos. A mulher e o homem sabiam que eram semelhantes. A certeza se confirmava com a troca de olhares: não há mistério quanto à existência no momento em que as pupilas vívidas revelam o peso do universo. Entre suas similaridades, a mulher e o homem sonhavam; a mulher e o homem imaginavam; a mulher e o homem procuravam algo além do destino que os fez nascer sob um mundo de fronteiras. Em dados momentos, foram uma companhia um para o outro. Deitados por cima das colinas sentiam o vento derramando seu som pelo chão, como um pano cobrindo o verde. Era comum que um ímpeto brutal fizesse com que o homem colocasse o peso do seu corpo contra o da mulher. Ela se esquivava. Aquele apelo ao instinto reprodutor não a convencia. Sentia-se presa, como numa tentativa pífia de dominarem-na. A cada vez que aquela situação ocorria, seu espírito livre também lhe dava forças para correr para longe. Assim, entre encontros e fugas, mulher e homem seguiam suas vidas. Mesmo com tanto espaço disponível, a tranquila vida da mulher tornou-se angustiante. Já conhecia cada canto do Éden, de forma que seus passos constantemente a levavam até os limites do paraíso. Sabia que poderia abandonar aquele lugar com facilidade, então o que a impediria? Era muito pior: o assombroso destino sussurrava em seus ouvidos a palavra “dever”. O suor gelado caia entre seus seios e, derrotada, retornava para os bosques.

Certa vez, seguia seu caminho solitário junto aos jardins carregados de cores se esquivando dos espinhos que algumas raízes criavam. O fim da tarde e o início do anoitecer criavam um contraste mais acentuado entre o verde e o resto das flores espalhadas. Pela paisagem plana era possível enxergar as árvores mais altas se aproximando da trilha incompleta. Um pouco cansada, decidiu se sentar entre um par de lírios direcionados à Lua cheia subindo ao céu. Seu pé esquerdo acidentalmente tocou em algo improvável naquele lugar: uma maçã vermelha, nítida e brilhante caída no gramado. Da forma como um dia ensinou suas mãos, selecionou a fruta entre os demais elementos do chão. Olhou ao redor à procura de uma origem que justificasse a presença de uma coisa que apenas existia nas proximidades dos rios. Não encontrando nada, decidiu simplesmente comer aquele acaso curioso em suas mãos. Antes de dar a primeira mordida, ficou intrigada com o formato que a maçã fazia entre os seus dedos. Aquela imagem formada lhe causava a sensação de potência perante o mundo. Nada era linear, nem simétrico, nem regular. Era capaz de sentir as ondulações do fruto rente à sua pele, de forma que cada poro lhe era percebido. A cor vermelha também despertava um certo arrepio que contornava todo o seu corpo. Pensava na sua imagem refletida através de todas as águas que já se deparou e nela via uma maçã. Uma maçã única, tal como todas as outras únicas, pois o mesmo acaso que a levou até ali seria o acaso que faria as ondas de seu corpo. Entre tantas casualidades, como seria possível ditar o que deve ser feito? Existindo um destino, deslumbrar-se com o improvável não é parte do caminho. Nega-se o destino pois a inquietude existe, e dela tomamos nosso transe diante do novo. Cega e faminta pela vida, a mulher devorou a maçã possuída por desejo. Ainda lembrando-se do seu próprio corpo, retornou aos limites do Éden. Queria buscar um corpo que nela despertasse seu entusiasmo diante da liberdade. Decidiu meditar e saber o que realmente queria antes de partir.

No primeiro dia de espera, descobriu-se lésbica. No segundo, detestada perante ao mundo. No seguinte, mulher. No quarto, sem paciência de esperar um sétimo, partiu em busca de si. Sentindo certo enjoo, uma ansiedade de viver, abandonou aquele lugar por conta própria. Na verdade, queimou seu jardim por inteiro. Sabia que viver ali era privilégio, e privilégios são erguidos por cima dos ombros de outros. Além disso, nunca quis o corpo do homem sobre o seu. Não queria aquilo nunca mais. Queimada e suja perante aos olhares viciados, um sangue borbulhante marcado para o esquecimento. No entanto, a voz. A voz a tornou a personificação de sua liberdade. Disse-lhe que os braços eram seus para envolver o próprio corpo, e que as pernas eram suas para caminhar na trilha inventada por si. Nos ambientes comuns, foi louca. A loucura, forma ambígua da tão esperada verdade. Uma louca mulher, destruindo o coração do Éden. Decidiu que precisava se chamar de algo. Assim nasceu Lilith.

Envolta na fumaça que sobrou do lugar de onde veio deslumbrou-se com o maior crime que cometeria: sua liberdade. A história, que tanto fala pelos homens, faria o seu papel corretivo de manter o “dever ser”. Aquela que decidiu apenas o “ser” foi apagada. No entanto, novamente, a voz. A voz vem de dentro, corrói os fatos sólidos e permanece no limbo onírico de todos nós. A dita mulher se repetiria diversas vezes, como demônio, como bruxa, como traidora. Sua transgressão amedrontadora seria o seu próprio espírito. Desse espírito, surgiria o ímpeto atrevido que nos coloca de frente com o poder transformador. Aquela voz que ecoou no Éden destruído seria a de outras muitas, que se perguntam a cada dia quantos mais terão que incinerar para provar que seus futuros não são de ordem do destino, nem de pessoa alguma no universo. Como um corpo que demanda liberdade, derroto um Éden dentro de mim a cada vez que percebo que não devo ser mãe, que não devo cuidar de um lar, que não devo ter um homem, que não devo nem ao menos ser mulher. Minha voz também é a de Lilith. Como semelhante, falo por ela e grito para que não a matem. E como admiradora das improbabilidades trazidas pela vida, também quero desmantelar qualquer destino que oculte a riqueza da escolha.

Texto de 2014. Desenho em carvão de 2020.

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